41 – Estudos – primeira parte

O grande Mestre Nazareno permitiu apenas o registro do essencial dos seus ensinamentos. Se registrado tudo o que Jesus pregou e praticou em três anos, daria um volumoso compêndio de repetições constantes e desnecessárias. Do que chegou até o presente, conhecemos algumas parábolas e situações vividas pelo Mestre, que trazem um sentido relativo a uma mesma questão, ainda que se trate de um resumo básico.

O extrato evangélico legado à posteridade, todavia, cumpre literalmente o objetivo do Mestre. O “permitiu” acima não foi por palavras, quando ainda na Terra, mas por situações criadas desde o espaço (mundo espiritual), pelas vias mediúnicas dos apóstolos e, posteriormente, por leigos e não apóstolos.

Os apóstolos, entre os quais Iscariotes, sem favor nenhum, eram médiuns, o que provaram em ocasiões diversas, embora nem tudo esteja inserido nos Evangelhos, senão esporadicamente.

Não há como atestar um cronológico nos ensinamentos de Jesus, porque sendo ele um homem do povo e em seu meio vivendo, valeu-se de todas as oportunidades para deixar transparecer, quer por parábolas, ou pelos acontecimentos fortuitos, as suas referências-lições. A maneira pela qual foram transmitidas não tem o cunho pedagógico, doutrinário como se deve entender. Não é, pois, “eu vos ensino”, mas sim “em verdade vos digo”.

Por força da circunstância, quando a religião era a base e estrutura da sociedade, agiu com inteligência, moldando seus ensinamentos àquela, da qual proveio a interpretação em conceitos idênticos até o presente. Daí a não menos inteligente recomendação, a que procurássemos a “verdade” neles contida.

Não se trata, pois, da verdade em contraposição à incerteza ou à mentira, mas o que de real como verdade o “espírito” contém sob o manto do místico religioso. Enquanto o homem moldar o seu raciocínio pelo religioso, estará apenas dando continuidade ao necessário, sem que possa discernir entre a verdade e a não verdade.

O Evangelho não se presta pelo seu conteúdo como base ou estrutura de religião, porque é um tratado de evolução de âmbito universal, em que a unidade é tida como simples parcela do todo. Todas as parábolas entram de uma ou outra forma, à temática evolucitária, sendo umas de elevado teor sócio-operativo e outras, o indicativo dos resultantes desse mesmo operativismo.

 

JESUS E SITAÇÕES EVANGÉLICAS

Jesus generaliza quando “DO OCIDENTE E DO ORIENTE”  e esclarece quando “EM ESPÍRITO E VERDADE”, ou seja, entender o real, o verdadeiro, pela inteligência e razão. Transborda em primado de justiça quando “EU TAMBÉM NÃO TE CONDENO”. Secciona a evolução em escala hopotética primária e superior quando “A CESAR O QUE É DE CESAR” (primária) e “A DEUS O QUE A DEUS PERTENCE” (superior).

Equaciona como sócio-dinamizador quando “EU VOS FALO DAS COISAS DA TERRA”. Preconiza com exatidão que pela inteligência o homem haverá de assenhorear-se de todo o arcabouço científico comportável em um “estágio” evolutivo quando lhe será a “Terra por herança”. Para o evolucionista, Terra ou orbes iguais. Declina da situação emocional, sensitiva e moral provinda desta “libertação” em consciência e razão, a que denomina de “mansuetude”.

Prevê com precisão cronométrica a valorização do superior do existir quando “O FILHO DO HOMEM NÃO TERÁ UMA PEDRA ONDE REPOUSAR A CABEÇA”. Nota-se a ausência da ideia de propriedade do concreto transitório, substituição literal do verbo “ter” pelo “ser”.

Equacionar com admirável agudez intelectual da necessidade da cultura científica generalizada, além de racionalmente esquematizada quando “UM SEMEADOR SAIU A SEMEAR”.

Preveniu da nulidade de incutir facetas superiores da cultura em mentes não previamente preparadas, e suas consequências como desperdício.

Repetidas vezes, embora referindo-se a pessoas, penetra profundamente em épocas, determinando sua constante prevalecente. Fala de um estado de inteligência, razão e consciência como determinante “natural” do ato e o ato como dinamizador e mantenedor deste mesmo estado quando “VAI, FAZE O MESMO E VIVERÁS”.

Disto, por associação, entendemos que “de onde nada existe ainda se pode tirar”, quando “NÃO SE COLHE FIGOS DOS ABROLHOS”.

Embora de forma velada, nos dá a entender da independência do processo evolutivo no tempo e espaço, em amplitude que ultrapassa o “auto-processo” estágio-terra quando “NINGUEM ACRESCENTA UM CÔVADO À SUA ALTURA” e “ATÉ OS FIOS DE SEUS CABELOS ESTÃO CONTADOS”.

Diz da evolução em seus objetivos únicos e totais quando “QUE NENHUMA DAS OVELHAS SE PERCA”.

Valoriza a força do trabalho, gerador do processo, quando “POSTO POR GOVERNADOR DE DEZ CIDADES” por ter multiplicado as “MINAS”.

Importantes considerações devem aqui ser trazidas à luz. Primeiro, que intencionalmente esquecemos a biografia do Mestre, instrumentados na atitude condicionada no veemente repúdio à bajulação à sua pessoa quando “DIZEIS SENHOR, SENHOR E NÃO FAZEIS A QUE EU VOS CONCITO”. Segundo, que todas as parábolas, bem como “passagens” da vida do Nazareno, giram sobre um eixo direcional, sendo o histórico o complementativo da narrativa, para cujo discernimento basta estabelecermos como métrica o relacionamento “Evangelho-realidade-sociedade” ou “coisas da Terra”, limite que sob hipótese alguma pode ser ultrapassado, sob pena de cairmos no fantasioso ou imaginativo, sem amparo na razão. Eixo, dissemos, que é o objetivo e esclarecimento, dito “VERDADE”.

 

MISSÃO DE JESUS

Inteligência multimilenarmente avançada em relação à época e cultura, soube inserir na filigrana das parábolas o objetivo fundamental, e isto nos testifica no batismo, ao afirmar a João que “POR ENQUANTO NOS CONVÉM SE CUMPRA TODA JUSTIÇA”.

Ainda no batismo nos é revelado em “por enquanto”, que “depois”, tempo e espaço, aquela justiça não mais conviria, o que nos leva a entender que “outra” justiça se faria presente, o que está solidamente afirmado na própria síntese universalista: “uns aos outros”, em razão superior, “amor”.

Cumpre-se agora, segundo nosso entendimento, definir a missão do grande Mestre junto ao planeta Terra, tarefa de difícil desempenho. Não sendo, entretanto, meta o “ganho de causa”, não entraremos em terreno advocatício, mas como já dissemos, “exporemos” segundo nosso entendimento, deixando aos que se derem ao trabalho de uma análise consciente, o concordar ou não. Não nos fere a ousadia do “crê ou morre”, porque o tempo do “ajoelha-te e abjura” de há muito é passado.

Começa aqui a delinear-se a missão de Jesus.

Se a Jesus apenas “convinha” a justiça reinante, provado está que não concordava com a mesma conscientemente, pois entre o obedecer por conveniência e concordar pela consciência, existe grande distância. Disto decorre ser uma missão UNICAMENTE social, com visos à reestruturação da sociedade terrena, em moldes de justiça perfeita.

Sendo a evolução um processo contínuo e natural antecedendo a Jesus, podemos ter neste a primeira página do livro de uma nova era da evolução, ou seja, a era que se conduz em termos de intelectualização, como veículo à moralização. Digamos, o início de mais um estágio evolutivo, referente mais ao desenvolver da inteligência. O nosso conceito de tempo para evolução não decorre do calendário humano, mas perpetua-se pela eternidade.

 

JESUS E MARX

Como nada acontece ao acaso e tudo absolutamente obedece às leis regentes da evolução, atuando segundo o estado das limitações humanas numa época e cultura, em nada demerece o Mestre, se o compararmos a Marx, dentro do senso evolutivo.

Marx foi o que bebeu a essência de Jesus e entendeu que antes das “coisas de Deus”, deve-se levar ao seu termo as “coisas de César” e descobrir a “ROCHA” sobre a qual se há de construir o edifício. Marx entendeu ainda que sem a “devida preparação da gleba” sobre a qual deve ser semeada a semente Nazarênica, jamais se poderá esperar a “frutificação ao cêntuplo”.

A sucintez do que dizemos surge em questão para uns, mas abre perspectivas aos estudiosos. Se cumpre “endireitar as veredas” e toda “árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo”, importa apenas associar época, fatos e pessoas e teremos motivos para um raciocínio mais condizente com a evolução.

Sabendo Jesus que o homem da época não era um automotivado pela razão e consciência, como não o é ainda hoje, mas sempre por interesses de qualquer sorte, no uso da inteligência ímpar, entrou nos prometimentos. Este proceder teve como objetivo resguardar a sua palavra através do tempo, porque se assim não fora, de há muito teria sido relegada ao esquecimento.

A própria história é repleta de mártires conscientes da “letra”, embora inconscientes do seu “espírito”, o que pelo exemplo concitou outros e assim, num sucessivo até o presente.

Longe de nós o confundir “consciência própria” de um fato, com fanatismo conduzido. Podemos nos tornar convictos de um fato pela sua aparência sem que se constitua numa verdade, sendo esta uma questão unicamente pessoal, permissível pelo livre-arbítrio e compreensão.

 

POR QUE EXISTIMOS? PARA QUE EXISTIMOS?

Duas perguntas de capital importância: Por que existimos e para que existimos? A primeira, dentro da realidade, só pode ser respondida em si mesma: existimos porque existimos, apenas. A segunda, requer ampla reflexão, em paralelo a uma analogia racional com fundamento naquilo que é dado ao homem entender e concluir. Para uns poderá ser: o nascer, viver e morrer. Este fundamento está fora de cogitação. Há os que possuem a perspectiva da miragem, são os que buscam honestamente nas religiões a sua própria salvação, mas que limitam o “para que” existir, em obedecer a todos os preceitos por elas ditados, como bastantes.

Há os que pretendem se destacar neste mesmo campo dizendo-se evolucionistas, Existem os que, diremos, “livre pensadores” que buscam a verdade através da realidade, quer científica ou histórica, sem vínculo com qualquer denominação sectariata, sem pretensão outra que não a verdade.

Como falamos aqui a pessoas que supomos, procuram a verdade, não nos acontecimentos o advogar dos primeiros, que embora estejam situados no realismo físico, não estão no mental, vivem o fato não sentindo em prospecção o “para que”. O livre pensador que busca a verdade superior dentro da verdade elementar, encontra nas ciências, quer antropologia, arqueologia e correlatas, imenso acervo de fatos que o levam a concluir que existimos para evoluir, sob todos os aspectos. Não seria bem aceitável a expressão “sob todos os aspectos”, se não incluíssemos a metamorfose biológica, sempre em relação ao “estado mental”, que pelo fato nos impõe a dizer evoluir em inteligência, sendo todo o mais um efeito desse fator. Só a inteligência evolui, ou desabrocha, melhor dizendo. Negar isto é entrar na fantasia e seria como negar a luz do sol.

O livre pensador não é um circunscrito ao hoje, mas valoriza todos os quesitos comportáveis na evolução, porque eles existem, e não por mero acaso.

Todos os fatos e eventos que influenciaram de uma ou outra forma a oscilação da sociedade, estão colocados em tempo, lugar e ação que lhes confere o concerto evolutivo do universo. Assim, a missão de Jesus foi trazer em tempo, lugar e de maneira que viesse acionar a mente humana, os alevantados postulados que deveriam ser postos em prática, no transcorrer dos milênios, conduzindo a humanidade à meta pré-traçada para a Terra.

Estes postulados se traduzem em toda sua plenitude, na preparação contínua da massa humana pelo desenvolver da inteligência, através da qual remodelaria a sociedade ao ponto de estar apta e fértil para receber a semente do estágio superior da sua própria evolução. Basta manusear a história e teremos a textual e irrefutável comprovação.

A história contemporânea vem acelerando o processo por vias que o homem ainda não se apercebeu, e o hoje grita aos “ouvidos de ouvir” e ressalta aos “olhos de ver” o inexorável.

Abstraindo-nos do fantasioso que envolve o nascimento de João Batista, mas entretanto na sua missão, podemos observar que foi contemporâneo do Mestre, sendo decapitado antes da crucificação, o que lhe deu tempo exíguo a que levasse a cabo tão relevante tarefa de “endireitar as veredas” e, como no-lo atesta o próprio fato, em nada influiu à missão maior que coube ao Nazareno.

João, que fora Elias, em “Jesus dá testemunho de João” e que não de todo desvinculado do Mosaísmo, teve a infelicidade de interferir na vida íntima de Herodes, pagando com a vida por esse ato. Sendo porém, o missionário encarregado de “endireitar as veredas”, vem reencarnado em ocasiões que lhe permitam atingir a maturidade e contribuir em eventos que promovem o avanço da sociedade rumo à concretização da semelhança. Marx outra coisa não fez e, quem o estuda e compreende, não pode deixar de estabelecer relação entre um e outro, no mister de retificar o caminho. Esta retificação jamais poderia alicerçar-se em virtuosismos e sectarismos, porque o homem encontra-se ainda em fase de complementação do básico, e o estado ambiente não aceita senão aquilo que lhe diga de melhor forma aos interesses condizentes a esse mesmo estado ambiente.

 

O CALENDÁRIO HUMANO

Aqui ainda não se tome por elemento de referência o calendário humano. O marxismo teria de eclodir em tempo, lugar e circunstâncias propícias, como todos os demais eventos e, como eles, também passar pela fase dos erros e acertos até que, herdado em experiência humana, viesse a se consolidar. Partindo da tetrarquia absoluta, até o presente, teremos  em perspectiva o futuro, e nos conscientizaremos de que tudo será uma questão de tempo “evolutivo”. Contra fatos não há argumentos.

 

DESNÍVEL SOCIAL E IGUALDADE

Se na presente época as pessoas “esclarecidas” não admitem o inferno com suas penas eternas, é inexistente, portanto, a “perdição, mas se um camelo passa pelo fundo de uma agulha antes que u, “rico possa salvar-se”.

Não se trata aqui de rico como pessoa, pois “nenhuma ovelha se perderá”, visto que até as tresmalhadas serão buscadas e recolhidas ao aprisco. Não traduz tampouco a pobreza, a falta, a miséria como condição de salvar-se. A alusão nos leva a outro ângulo de raciocínio, que foge da transcendência concebida até o presente, situando-nos ainda nas “coisas de César”. Como tais coisas se comportam desde os primórdios da razão até a complementação do homem como racional, que neste transcurso a entende como riqueza o acúmulo de bens materiais, de pronto se nos esclarece que causando esse fato o desnível em usufruto, o que se contrapõe à “semelhança”, desde esse elementar é inaceitável a sua continuidade. Não havendo perdição, como consequência não pode haver salvação, o que nos conduz dentro das “coisas de César”, as quais não se ultrapassou até o momento e, como nenhuma ovelha ficará fora do redil, a riqueza é no Evangelho, o acúmulo de uns em detrimento de outros, “curva e obstáculo à semelhança”, que deverá ser retificada pelo natural equilíbrio em benefício do todo. Não fazemos apologia ao marxismo pelo seu atual prático aplicado, como meta definida, porque seria colocar os meios como fim, ainda que também o próprio marxismo seja um instrumento de “retificação das veredas”, permitindo o avanço da evolução com a finalidade de receber a “ERA NAZARÊNICA”.

É natural que entendamos não ser ABSOLUTAMENTE POSSÍVEL, ma ERA do Evangelho “vivido” na face da Terra, “época da mansuetude”, a existência desse acúmulo e, mesmo que seja “de uma pedra”!, a título de propriedade. O grande mal da riqueza não está no acúmulo do material, mas no condicionamento moral e sensitivo em que o espírito se envolve. Desde que consideremos a riqueza em seus perniciosos efeitos, poderíamos decretar a falência de Deus, porque a deseja. A inveja que mora no coração dos pobres com relação à riqueza, é tão ou mais virulenta que ela própria.

Quem, sem mentir a si mesmo, não desejaria ser imensamente rico?

Quem, sem mentir a si mesmo, não maldiz a pobreza, a miséria e não sente nisso uma injustiça?

Falamos aqui de pobres e ricos e não dos que, situados na escala social, desfrutam pelo seu trabalho, da dignidade de vida como ser humano, embora estes também, salvo exceções, enredados pelo concerto ambiental e época, mantenham o mesmo desejo do sempre mais e melhor. É o estado da mente que não entrou ainda na valorização do superior, apegando-se como prioritário ao que o Mestre qualifica de acréscimo. Levar este tido como causa primeira do existir ao seu devido lugar, “acréscimo” é que se deve entender por “endireitar veredas”.

Ninguém pode entender senão até os limites de sua desenvoltura intelectual, porque só a inteligência assim determina.

Passamos a entender o “pelo fruto se pode conhecer a árvore”, que outra coisa não é senão pela compreensão e exteriorização alicerçadas nas pessoas.

Não se posiciona, portanto, em atos de bondade como atos apenas, mas da compreensão e sentimentos que nos impulsionam, pois se não formos impulsionados apenas pela compreensão e sentimentos pessoais, não vivemos o ate e, não tendo o fruto a “seiva” da árvore, a ela não pertence. É o “SER” e não o “TER”.

Ninguém pode exteriorizar-se senão na medida daquilo que já é, ser em compreensão e sentimentos, sem ditames alienígenas a esse íntimo, “vida”. Prematuro seria desenvolver a tese no seu conteúdo e contexto real, por ser demais complexo e abrangente, além de ferir conceitos ainda arraigados desde priscas eras.

Vemos que o ato condicionado a fatores de qualquer natureza exterior jamais se constituiu, ou se constitui em “fruto provido da seiva”. Por mais inverossímil que possa parecer, enquanto o homem perguntar por que faço, está virtualmente desligado do proceder.

Por que respiro? Por que vejo? São processos também comandados pelo espírito. A árvore apenas frutifica porque já é adulta.

Não encara verdade qualquer ato que por ser individual, traga propósitos também unitários e, muito menos quando em função do exterior, como fruto.

Só serão válidos como frutos da evolução, quando pudermos nos expressar como o Mestre: “Eu tenho vida em mim mesmo”, e isso quer dizer: trazer o “céu” para a Terra, dentro de si.

 

Irmão Anthero

(recebido por via mediúnica)