52 – O Bom Samaritano II

FRATERNALISMO NATURAL

A história do Samaritano narrada pelo Mestre, ao contrário do que muitos supõem, não encerra nada de transcendental que ultrapassem a compreensão do homem.

Importa que este homem, ao buscar a compreensão, tenha a mente livre, não sofrendo, portanto, as imposições de qualquer formação religiosa ou filosófica de caráter sectário e, menos ainda, ortodoxo.

As lições evangélicas não suportam pré-moldados em concepções unilaterais e, menos  vivencial.

Salientamos para início de discernimento, que o Mestre viveu numa época em que havia predominância da religião em todos os setores da vida, na sociedade judaica, motivo pelo qual os exemplos e narrativas foram moldados nesse princípio, e que impôs ao narrador dar a benemerência como um termo de relacionamento humano. Todavia, um exame mais acurado nos revela em sequência, ações puramente fraternatistas naturais, sem nenhuma conexão com o envoltório mítico, místico, deusístico sectário ou religioso, além de não penetrar num futuro, conseqüência de qualquer sintoma.

 

CONSCIÊNCIA EVOLUTIVA

Ao atentarmos para o proceder de cada criatura citada na historia, veremos que, em realidade, a formação religiosa não confere crédito como determinante da ação, mas faz-se imprescindível “algo” íntimo e próprio de outra origem. Isto nos é revelado quando, tanto o levita, quanto o sacerdote, ao depararem com o ferido, passaram ao largo, indiferentes e insensíveis.

O Mestre não era leviano no seu dizer e tampouco dizia sem objetividade, e a inserção desses dois personagens e o seu proceder, advoga claramente o que dissemos, senão, que outro motivo?

Sabendo que os Samaritanos não eram tidos em boa conta, quer moral ou religiosa, no seio do judaísmo, e tendo o Mestre o colocado em autêntico superior quanto a ação dentro da história, fica em indelével caracterizado que nele havia esse “algo” (já) que independe de títulos de qualquer jaez, ainda que religioso e, menos ainda, sacerdotal.

O Samaritano, que não tinha formação religiosa, portanto nada conhecia da lei de Deus, foi o que agiu e presta valioso acervo ao evolucionista, pois que nada além de uma profunda compreensão do imperativo do momento, o levou a agir, o que se pode traduzir ser já o Samaritano uma mente, um espírito evoluído à altura, capacitante de tal discernimento. A este estado de razão e consciência evolutiva, é que dizemos o resultante do desabrochar da inteligência, ou esse “algo” a que nos referimos.

Isto nos leva invariavelmente a consentir não ser a evolução produto da religião ou religiões e que, sob nenhuma hipótese ou pretexto, pode ser qualificada, codificada e escalonada, ainda que pela mente humana mais laureada de saber científico, quer encarnado ou não.

Aqui distinguem-se cronometricamente o pseudo e o fato, visto que, tanto o levita quando o sacerdote, saturados de saber das leis regentes do relacionamento humano, não tinham alcançado evolutivamente o padrão mental, “grau de inteligência”, que os capacitasse a entender da ação sobre o fato em seu valor intrinsico como fraternidade, humanidade e mesmo, religiosismo. Eram ambos condicionados, modelados, anestesiados inconscientes, no superficial das leis emanadas do templo e do Mosaísmo, sem que todavia, tivessem a personalidade despertada pela evolução. Disto infere-se, sem dúvida, que a ação é o efeito da evolução, já constituindo o “ser” e não a causa. Ninguém age senão na medida do que já é, e até esse limite somente.

A tentativa de superação fere a lógica, inclusive e evolutiva, e redunda em neutralização da  personalidade como é, pelo processo condicionante e anestésico da razão, enublando o senso crítico. A este processo é que chamamos religião, cujos resultantes dizem ser um “freios” necessário às tendências negativas. Freio admitido no seu extenso sinonimismo, pode ser tudo, menos educativo, e este, o educativo, é que tem como efeito a desenvoltura da inteligência.

No  Samaritano podemos deduzir das conseqüências naturais da ação, que flui em sensibilidade ao que o Mestre disse: “vida”.

Aqui aure o raciocínio, o estimulo que conduzirá a conclusões de magnitude superior, como veremos.

 

 

OBJETIVIDADE E INOBJETIVIDADE

Devemos antes esclarecer o que seja objetividade e inobjetividade, o que nos desviará do curso proposto, para a análise do homem (espírito) independente de sua situação na carne ou fora dela, visto que a mudança das condições vivenciais, em nada influi na personalidade, no caráter e na sensibilidade. Somos o que somos, estejamos onde estivermos.

Mas, o que é o homem? A esta pergunta é obrigação inquirir de que ponto de vista ou conceituação devemos entendê-la: da carne ou do espírito? Do primeiro, é claro tratar-se de um composto celular como tudo que existe, cuja forma, a humana, não dá superioridade sobre as demais. O segundo, o que dizemos espírito, essência, ego, alma e outros tantos de contesto religioso, além do bioplásmico pré-concreto e mais, no campo científico, cuja especulação hoje recebe o nome de parapsicologia, aliás já prenunciado há dois mil anos pelo Mestre Nazareno: “Sois deuses e capazes de fazer o que eu faço e mais ainda”.

Esta metodologia especulativa poderá chegar a ver e até definir os processos de que se vale a essência para a dinamização exteriorizada em anormal no campo do concreto, todavia jamais em toda a eternidade, concluirá do seu constitutivo acionador.

A partir desta premissa, resta-nos apenas observar as emanações inteligentes e independentes de qualquer impositivo externo e, por estas demonstrações, concluir tratar-se de um “ser” inexplorável em seu íntegro e, portanto, indefinível, e a isto é que chamamos “princípio” ou efeito puro ou primário, emanado do princípio Uno e absoluto: o Todo.

Tanto esta como outra qualquer ciência que pretenda explorar o princípio íntegro, só obterá efeitos secundários, dentro dos limites de capacidade evolutiva e com aquiescência e conhecimento de causa do auscultado. Temos, pois nesse princípio indefinível, o homem espírito, cujo retorno a vários corpos, “reencarnação” através dos milênios, é levado a emergir da ignorância de si próprio e do mundo (os) que os rodeia, quanto ao concreto e seus legislados.

Em parapsicologia o conhecimento e a compreensão do energético emanado não define o emissor, hoje e nunca, porque o homem opera somente com dimensões, o que não existe no princípio.

Assim como o homem não entende o não ter começo ou princípio, não entende ou entenderá o “ser” sem dimensão. O não dimensionado “inteligência”, concluído do ordenativo independente pela ação, dele fluída, que é em correlação ao que já é, evolutivamente, que deu margem à citação : “um samaritano” em quem influência religiosa não se fazia presente, em contradição aos influenciados e moldados, mas ainda não evoluídos à altura do desempenho.

Esta Samaritano acionou-se motivado pelo que já era, ou entende-se, a ação natural emanada do “já ser” capacitante, sem outro objetivo senão o de providenciar os recursos que o caso requeria. Temos, pois, o agir em comparação ao respirar, andar e outros, em que a consciência não entra em moldes calculados como meta, como retorno, como rentabilidade de qualquer forma ou espécie.

Se tomada na “letra” a fala do Mestre, quanto ao resultado da ação, suscita-nos um impasse, pois que o ouvinte era vivo e mais acentua-se para o evolucionista que sabe a vida, em seu sentido normal, eterna e sem solução de continuidade.

Assim como o Fator Supremo, pela compreensão, tolera passivamente as nossas limitações e deficiências processuais, delas advindo a Justiça Passiva, não temos o direito de criticar os que não agem de maneira idêntica ao Samaritano quanto ao mecanismo do ato, mas albergando o senso objetivo, ou seja, os objetivos propostos como recompensas exteriores em algum lugar. Caracteriza-se este senso objetivo como um aquisitivo, sem que se possa entender como Fator de Vida, ou seu mantenedor, como deixa transparecer o conceito na passagem do Samaritano.

Distingui-se,portanto, na simplicidade a observação que a objetividade do ato, calculismo objetivo, não se reproduz como sensibilidade cônscio-racional no momento da ação, e é a essa sensibilidade mantida pelo ato vivida no momento, que o Mestre diz ser a “vida”, cuja manutenção é a constante dinamização pelo “faze”.

Temos aí, em síntese, o que seja inobjetividade vivida porque já é o natural no ato e ação (Com objetivos calculados, essa “vida” não existe). Entende-se, portanto, que o espírito vive apenas e exclusivamente a vida no ato e, a atuação constante, nos esclarece o “viverás” (“Vai, faze o mesmo e viverás….”).

Deduz-se, pelo óbvio, que o sentido “vida” dado pelo Mestre no “Samaritano”, é a exteriorização do que já existe como fruto da evolução, ou seja, a capacidade de sensibilizar-se em função de um momento, independente de qualquer influência exterior, quer religiosa ou filosófica.

 

AÇÃO DE ORDEM SOCIAL

Em sujeição aos imperativos de uma época, o Mestre propôs uma ação de benemerência, porém, esta não deve ser compreendida como real e único operacional, mas a profundidade “espírito” da narrativa distende-se a toda ação de ordem social que, de alguma forma, leve a criatura à dignificação como homem.

Assentido que fosse pelo narrador, este ângulo especifico, como entendem as religiões, teria a concordância da existência, pré-estabelecida pelo Fator Supremo, de duas classes ou situações sociais distintas, constituindo-se uma, de eternos carentes e outra, de eternos beneficentes, o que nos leva a repudiar, de pronto, porque entra em choque frontal com o equânime concretizado na distribuição de todos os básicos à sobrevivência na Terra

Um erro não se justifica pela tolerância, referência à responsabilidade social, e pelo fato de tolerarmos a benemerência, também dita caridade-esmola ( o Mestre também tolerou), não nos permite os benemerentes como cooperadores legítimos do campo evolutivo terreno, mormente que todos, sem exceção, demovem-se pelo condicionamento à ação mecânica com visos ao retributivo de alguma forma, não vivendo o que é, em natural inobjetivo.

Isto não constitui culpa, pois extrema-se dentro dos limites de um estado de razão e consciência na escala evolutiva em que se encontra, e para isto, qualquer tentativa de superação é simplesmente impossível.

O homem do momento só age por uma motivação que lhe responda ao conceito de posse, ou aquisitivo exterior. Não encontra explicação em como “ser” para agir, e nem como “viver no ato, por já ser”.

As religiões, seitas e outros entendem o “ato” como causa e não como efeito da capacidade evolutiva. O Samaritano, não sendo um condicionado, e sua atitude vivida extra-conceito e Templo, firma-se, mesmo na narrativa, como ação sócio-fraternalista do homem, para o homem, em função do homem, pelo imperativo requerente pelo fato.

A narrativa implica em seu espírito ações de ordem sócio-dignificante sob todas as facetas, menos a que a letra ou exemplo retrata aos que se apegam às sectárias de toda ordem e estrutura, de onde a sua nulidade cooperativa evolucitária sócio-construtiva.

O Samaritano deixa bem claro que o ato não é motivado por interesse de qualquer concepção ou entendimento, quer no momento ou após túmulo, e não tem sentido aquisitivo ou exterior, mas vivifica no íntimo e inconsciente.

O Evangelho não porta míticos nem m

ísticos e, como conseqüência, nem religião. Ao contrário, é totalmente desvinculado em seus princípios, meios e fins, tampouco permite valorização individual na sua valorização individual na sua profundidade espírito, porque é essencialmente evolutivo, cujo processo desenvolve-se da unidade para com o todo e do todo para com a unidade, o que se entende como interrelacinamento cooperativo. Sendo pois cooperativo, fere a carência do conjunto onde não cabe o específico ditado pelo sectarismo, como esmola-caridade ou benemerência, mas em todos os ângulos de atividade social.

 

 

“AMAI-VOS UNS AOS OUTROS”

Não dizemos que o Evangelho seja o remodelador do mundo ou do homem individuo, porém é a previsão exata dos eventos que ocorreriam e ocorrerão no curso da história, não como profecia emanada de poderes supranormais, mas advindos da maior inteligência que passou pela Terra e constitui-se o resultado da análise partida de uma razão básica, determinando uma conclusiva irrefutável, que o tempo e a época presente vêm confirmando.

A completa transformação social em que os famintos de justiça serial saciados, dando início à possibilidade de vivência da verdade nele inserida e que o transformaria na Carta Magna das nações, onde o “amai-vos uns aos outros” seria o importante máximo.

Não se iludam os que capitulam ante os áureos da valorização individual por via do esmolismo, ou mesmo o crédito ao retributivo dele advindo, porque os princípios que alicerçam os ditames evangélicos, distendem-se ao operativo comum e genérico de ordem produtiva e construtiva, em plasma ideológico de justiça, cultura e progresso que constitui a primeira fase da remodelação que levará a Terra ao estado máximo permissível dentro da faixa em que se situa na esteira da eternidade evolutiva, que é a mansuetude: “Os mansos herdarão a Terra” – “Um til da lei não passará”. As eternas e imutáveis, não cedem a perorações inócuas ou fúteis, concebidas e ditadas pelo homem.

Se todas as palavras e exemplos do Mestre primam pela objetividade séria e concisa, a focalização do sacerdote, bem como do levita, que no quadro representam um sectário religioso e nulos em ação, dita-nos a claridade racional do improfícuo modelar como demovente. O Samaritano todavia, não se estreita na benemerência como tal, mas completa-se como tal, mas completa-se como ação social, levando a solução “in totum”, desde que teve o cuidado de prevenir em finanças no momento, além de compromissar-se com a complementação que ressarcia na volta. Se cuidamos do mendigo e ele continua mendigo . . . ..

 

IDEOPLASMIA MENTAL CENTRÍPETA

Há em todas as religiões o cuidado especial com a catequese, ideoplasmia mental centrípeta, e insuflar um pré-conceito convencional, modelando a mente a processo estereotipado.

Resulta daí que toda análise, quer científica ou filosófica nesse circunscrito, só nele encontra foros, razão e consciência dedutivos, o que aniquila, por conseqüência, a conexão a outros lícitos advogáveis, anestesiando a profundidade e elasticidade do senso crítico.

A catequese das religiões que se denominam cristãs, é extrato da letra e “literalmente” aceito. No momento em que a realidade diga da impossibilidade de tal vivência e cultivo, ampara-se no dogma elementar “desígnios de Deus”, a par dos prometimentos envolventes, criando assim, o fanatismo que leva à morbidez do sacrifício.

Assim, este apologismo repugnante do circo romano, e o não menos nauseante sacrifício da cruz, trazido gratuitamente à tona pelo caudal literário, dito evolucionista, propondo amnésia ao “misericórdia quero e não sacrifício” e “a cada um (pela razão e consciência íntimo-sensibilizante), segundo o seu exercitativo:obras”.

Analisemos o exemplo do Samaritano.

Amnésia proposta ainda ao “aquele que quiser”, aquele que já tiver capacidade de auto-deliberação racional e consciente, independente de insuflados dúbios e paliativos. Ainda que a referência seja individual, o espírito desta fundamentado nalógica irrefutável do tempo história, nos dita impossível no contexto evolutivo, devemos entender, no tempo em que o homem estiver capacitado a entender o que “proponho, ensino e pronuncio”.

 

CONCLUSÕES DE MAGNITUDE SUPERIOR

A comunhão com “Deus” só é estabelecida pela consciência e não pelo mecanismo do ato, e desde que este seja efetivado por um energético alienígeno a esta, resulta na ilusão cansativa apenas, daí que obras não são obras como se entende, mas o cônscio-racional-sensibilizante com que vivida: “Faze o mesmo, o mesmo sentimento inobjetivo, e viverás”.

“Remendos novos em roupas velhas”. Como entender esta estultice aparente? Que espírito sócio-fraterno nela residirá como objetivo do Mestre? É sem sombra de dúvida, senão pelo menos um dos ensinamentos básicos do mister operativo, do evolucionista, em independência completa de qualquer senso mítico, místico ou religioso, mas adentrando em seu espírito, quer ao implícito, quer no explicito, ao “samaritanismo verdadeiro” no seio da sociedade.

O remendo, como a palavra em si esclarece, é suprir em emergência o fruto da imprevidência, no caso, caiando o túmulo por fora, no tentame de encobrir a deterioração já existente.

O que é o mendigo? Fruto da Imprudência? Fruto das religiões catequisantes sectárias envolventes no convencional, para submissão com visos defensivos de classes.

O que é evolucionista religioso? Um mantenedor inconsciente, fundado nos seus próprios interesses evolutivos, que desse mesmo mendigo, faz agora capital rentável em benefício próprio. Se não há o objetivado anterior de forma consciente, há pela ignorância do espírito sócio-fraternalista do Evangelho, o cooperativismo mantido pelo remendo.

Aqui entramos no espírito da expressão do Nazareno, que se traduz em idealidade, e como veremos, não estabelece paralelo com ideologia, menos ainda com a atual, que é o início da real. A atual configura-se no estômago e centrípeta, a do carpinteiro judeu, complementa-se na cultura e ciência, pelo que é centrífuga. A atual pretende o convergente somativo, depois de que emergirá em divergente comungante natural e espontâneo. A esta inversão de valores é que dizemos a ausência de remendos.

A evolutiva religiosa fixa no Mestre-Homem, eternizando a bajulação : “Senhor, Senhor!”. A laica penetra a sua obra (seara) amanhando a gleba e semeando para que frutifique ao cêntuplo, e nisto é que reside a diferença entre idealismo vivido em termos de samaritanismo livre e inobjetivo e, o deusismo impenitente calculista e improdutivo.

 

Irmão Anthero

(recebido por via mediúnica)